O PODER DAS PALAVRAS CRUZADAS
- Jeff Peixoto

- 8 de fev. de 2019
- 2 min de leitura

O dia mal amanhecia e lá estava o jornal Correio Brasiliense na porta. Antes mesmo de me arrumar para ir ao colégio, eu já tratava de pegar o jornal e deixá-lo à disposição de meu pai, que sempre lia aquele calhamaço repleto de notícias e publicidades à mesa durante o café da manhã. Quando ele se dava por satisfeito e largava o jornal, aí era a minha vez! Eu só folheava de forma despretensiosa, interessava-me um pouco mais pela parte de esporte, sobretudo para estar atualizado com o mundo do futebol. Gostava também quando falavam de literatura, mas tudo muito superficial, comum para um garoto que nem completara ainda seus onze anos. Mas o que realmente me interessava naquele periódico eram as Palavras Cruzadas! E todo santo dia eu recortava aquele retângulo com a cruzadinha e guardava para responder na cama antes de dormir. À noite, já com o quarto escuro e só a pequena luz da luminária focando nos quadradinhos ansiosos para serem preenchidos, eu mergulhava de forma profunda em todos os enigmas que aquele passatempo apresentava como desafio. De caneta em punho entregava-me à missão de completar a cruzadinha sem me valer do “banco” onde estavam de mão beijada algumas respostas. “Não! Eu não vou olhar o banco!” Mas muitas vezes não tinha jeito, travava em alguma resposta que meu cérebro era incapaz de imprimir e a solução era me render à covardia da resposta ofertada. Aquilo me dava uma angústia...
E isso se tornou um hábito para toda a vida: as Palavras Cruzadas. Não há um dia em que eu não preencha, pelo menos, uma cruzadinha. Com a nova tecnologia, tenho um app no celular que me fez abrir mão das revistinhas da Editora Coquetel. Agora é só abrir o app e deixar o cérebro e os dedos trabalharem.
Essa história das cruzadinhas me veio à cabeça por conta de uma pergunta de um amigo, “Como você escreve, dialoga e produz tantas coisas com essa facilidade?” Minha resposta básica sempre era dar os créditos ao hábito da leitura de muitos livros, mas refletindo melhor, resolvi dar os devidos créditos às cruzadinhas, todas elas, diariamente, preenchidas ao longo de toda a uma vida, foram essenciais para muito do que crio hoje.
Outro dia li uma matéria na qual um neurologista afirmava que as Palavras Cruzadas podiam ajudar até a prevenir o Alzheimer, por conta do exercício cerebral aplicado. Também já li que isso não interfere em nada. O certo é que, quando alguém, em alguma situação qualquer, fala, por exemplo, sobre astronomia – assunto que não domino – e gagueja tentando lembrar o nome do primeiro satélite artificial enviado ao espaço, meu cérebro automaticamente busca na gaveta do histórico das cruzadinhas: “satélite artificial com sete letras?” E a resposta vem, “Sputnik”!








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